The cure for boredom is curiosity. There is no cure for curiosity.

23
Abr 10



 

 

Já há muito que me habituei a ver a revelação saudada com gozo e descrédito. Se era coisa que não me ralava em plena autoconfiança adolescente, tão intrépida como esferovite, ainda menos me rala agora. Já ouvi todas as piadas com calções, lenços e idosas com necessidades de auxílio rodoviário possíveis e imaginárias. E tenho sempre mais uma acha para atirar para a fogueira do escárnio: não foram os meus pais que me meteram nos escoteiros (*). Fui eu que quis ir. Já não era propriamente uma criança, tinha 15 anos e uma independência parental que invejava as minhas amigas.

 

Não vou fingir que era tudo inocente. Os rapazes mais giros da minha escola andavam praticamente todos no AEP 82 e o uniforme era a garantia que podia passar noites fora de casa sem ter de dar grande cavaco à minha mãe. Mas para quem considera ter começado a sua carreira criativa inventando desculpas para se baldar às aulas de Educação Física (true story, um dia explico), colocar-me a jeito para subir montes e vales para fazer abrigos e fogueiras com as minhas próprias mãos era quase harakiri. Nestes aspectos, estive sempre longe de ser brilhante. Mesmo os meus nós nos atacadores dos sapatos não duram muito.

 

Ficaram-me muitas coisas dos meus anos escotistas. Falar das amizades é óbvio, suponho. E estaria a mentir se não admitisse que fiquei uma criatura mais voluntariosa. E dá-me imenso jeito estar treinada para dormir em quaisquer circunstâncias – não há persiana aberta ou obras na rua que cheguem aos calcanhares de dormir ao frio com a cabeça em cima de uma lata de feijão e um marmanjo de outra patrulha a tentar tirar-me as botas que tenho calçadas (sim, mesmo a dormir) para as atirar para cima de uma árvore. E já consegui impressionar pessoas armadas em intelectuais por saber de cor o primeiro canto dos Lusíadas (que faz parte da letra do hino escotista). Parece pouco ou parece que o digo com cinismo, mas longe disso. Hoje é Dia do Escoteiro e eu ainda sinto que é um bocadinho meu, apesar de ser a coisa menos socialmente sexy que posso admitir publicamente.

 

Daqui a uns poucos meses volta a época de festivais de Verão, o que quer dizer que me vão perguntar se estou disposta a acampar. E é nessa altura que vou explicar que já acampei mais vezes que eles todos juntos e ver as sobrancelhas a levantar.

 

 

 

(*) = para quem me chateia sempre o juízo sobre se a grafia é “escoteiro” ou “escuteiro”, é favor ver isto.

 

 

publicado por Miss November às 16:12

 

Foto tirada à socapa numa aula de judo no jardim do Palácio de Osaka (Setembro 2008)

publicado por Miss November às 03:52

 

Eu tinha 14 anos e passaram outros tantos. Oficialmente, talvez não seja correcto considerar o primeiro concerto ao qual fui. Mas nunca quis contar com aquele concerto do Jorge Palma para o qual a minha mãe me arrastou quando eu tinha sete anos (foi na zona da piscina de um aparthotel no Algarve e eu adormeci numa esteira ainda antes do primeiro acorde soar, lançando ocasionalmente olhares birrentos àquele tipo que cantava sobre whisky de malte e não me deixava sonhar com o Meu Pequeno Pónei) nem a actuação do Avô Cantigas num parque subterrâneo de um centro comercial em Mem Martins (momento no qual julgo que o meu cérebro joga à apanhada comigo, porque podia jurar que não há parques subterrâneos em Mem Martins até hoje). Mas foi o primeiro concerto para o qual juntei dinheiro para o bilhete e que me fez batucar os ventrículos numa insónia inquieta na noite anterior.

Na altura, não era cool gostar dos Blur. Lembro-me de um rapaz da minha escola secundária olhar para a minha t-shirt com o logo da banda e dizer-me “acho que a tua t-shirt dos Bush tem uma gralha”. Na altura ainda estava a treinar as respostas de ponta-e-mola que hoje me saem facilmente, pelo que o deixei prosseguir na sua ignorância. Mas não fez mal. Os Bush morreram sem deixar rasto. O rapaz em questão trabalha hoje em dia numa gasolineira. A ordem no mundo foi reposta sem beliscões.

Eu gostava do Blur porque tinha ganho o The Great Escape num programa do Júlio Isidro. Na altura, dominava tudo o que eram os concursos de “envie a melhor frase”, fruto talvez de ter recebido aos nove anos uma máquina de escrever que eu queria levar até para a praia. Como não cabia no baldinho (e sim, levei baldinho para a praia até ridiculamente tarde), nunca a consegui esconder do meu pai ao ponto de a fazer atravessar a Ria Formosa. 

Era Fevereiro e estava frio. Lembro-me deste último detalhe porque levei demasiada roupa vestida, camadas de algodão compacto que vim a odiar ao fim de dois pulos num refrão. Havia um tipo igualzinho ao Graham Coxon numa das varandas do Coliseu e a minha clara inexperiência ainda me deixou confusa algum tempo, antes de ter percebido que era a versão de Almada e não a versão londrina. Quando entrei, achei a sala enorme. Mas calculo que não é difícil arranjar um local maior que um parque de estacionamento em Mem Martins, mesmo que imaginário. Sentei-me nas bancadas, do lado esquerdo do palco - devidamente decorado com hambúrgueres de tamanho de fazer babar o Fernando Mendes. E quando o concerto começou senti que ia morrer. Mas em bom.  Foi ao mesmo tempo inesquecível e demasiado avassalador para que o meu cérebro o tenha armazenado.

Eu tinha 14 anos e passaram outros tantos.  Os Blur já acabaram, voltaram e acabaram outra vez. Mas eu perdoou-lhes a inconstância. Se eu mudei de certezas tantas vezes em 14 anos, eles também têm direito.

 

(*) = daqui.

publicado por Miss November às 02:51

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