The cure for boredom is curiosity. There is no cure for curiosity.

23
Abr 10

 

Eu tinha 14 anos e passaram outros tantos. Oficialmente, talvez não seja correcto considerar o primeiro concerto ao qual fui. Mas nunca quis contar com aquele concerto do Jorge Palma para o qual a minha mãe me arrastou quando eu tinha sete anos (foi na zona da piscina de um aparthotel no Algarve e eu adormeci numa esteira ainda antes do primeiro acorde soar, lançando ocasionalmente olhares birrentos àquele tipo que cantava sobre whisky de malte e não me deixava sonhar com o Meu Pequeno Pónei) nem a actuação do Avô Cantigas num parque subterrâneo de um centro comercial em Mem Martins (momento no qual julgo que o meu cérebro joga à apanhada comigo, porque podia jurar que não há parques subterrâneos em Mem Martins até hoje). Mas foi o primeiro concerto para o qual juntei dinheiro para o bilhete e que me fez batucar os ventrículos numa insónia inquieta na noite anterior.

Na altura, não era cool gostar dos Blur. Lembro-me de um rapaz da minha escola secundária olhar para a minha t-shirt com o logo da banda e dizer-me “acho que a tua t-shirt dos Bush tem uma gralha”. Na altura ainda estava a treinar as respostas de ponta-e-mola que hoje me saem facilmente, pelo que o deixei prosseguir na sua ignorância. Mas não fez mal. Os Bush morreram sem deixar rasto. O rapaz em questão trabalha hoje em dia numa gasolineira. A ordem no mundo foi reposta sem beliscões.

Eu gostava do Blur porque tinha ganho o The Great Escape num programa do Júlio Isidro. Na altura, dominava tudo o que eram os concursos de “envie a melhor frase”, fruto talvez de ter recebido aos nove anos uma máquina de escrever que eu queria levar até para a praia. Como não cabia no baldinho (e sim, levei baldinho para a praia até ridiculamente tarde), nunca a consegui esconder do meu pai ao ponto de a fazer atravessar a Ria Formosa. 

Era Fevereiro e estava frio. Lembro-me deste último detalhe porque levei demasiada roupa vestida, camadas de algodão compacto que vim a odiar ao fim de dois pulos num refrão. Havia um tipo igualzinho ao Graham Coxon numa das varandas do Coliseu e a minha clara inexperiência ainda me deixou confusa algum tempo, antes de ter percebido que era a versão de Almada e não a versão londrina. Quando entrei, achei a sala enorme. Mas calculo que não é difícil arranjar um local maior que um parque de estacionamento em Mem Martins, mesmo que imaginário. Sentei-me nas bancadas, do lado esquerdo do palco - devidamente decorado com hambúrgueres de tamanho de fazer babar o Fernando Mendes. E quando o concerto começou senti que ia morrer. Mas em bom.  Foi ao mesmo tempo inesquecível e demasiado avassalador para que o meu cérebro o tenha armazenado.

Eu tinha 14 anos e passaram outros tantos.  Os Blur já acabaram, voltaram e acabaram outra vez. Mas eu perdoou-lhes a inconstância. Se eu mudei de certezas tantas vezes em 14 anos, eles também têm direito.

 

(*) = daqui.

publicado por Miss November às 02:51

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