The cure for boredom is curiosity. There is no cure for curiosity.

22
Jun 10

Fui uma adolescente intelectualmente algo arrogante. Não quer dizer que hoje esteja livre de ter alguns acessos, mas credo, a minha versão actual não teria problemas em dar umas chineladas no rabo na minha versão de há dez anos atrás. Uma das coisas que caracterizava esta minha soberba de neurónios era achar que tudo aquilo que eu não gostava de ler, ouvir ou ver merecia automaticamente a etiqueta de “mau”. Recordo-me de na faculdade ter uma lista de artistas pop que mandaria para uma ilha deserta para não chatearem ninguém. Poucos meses depois, arranjei emprego numa rádio mainstream – no fundo, fui trabalhar para a ilha. Ah, karma with a vengeance. E foi aí que comecei a ter de engolir o pedantismo feito sapinho e a aprender distinguir que há coisas que até são bem feitas – e eu é que, simplesmente, não gosto. Abriu-me a cabeça à tolerância cultural e a saber perceber que há, de facto, bons e maus produtos culturais em todo o espectro de vertentes (e não uso a palavra “produtos” com qualquer sentido pejorativo). Mas o que os torna potencialmente sofríveis não é o meu mero  gosto pessoal. Acho Tokyo Hotel mau, acho Paulo Coelho uma manobra de marketing fajuta, não me apanham a ver um filme baseado nas coisas do Nicholas Sparks. Mas isto são coisas que acho mesmo mal feitas, preguiçosas, formulaicas e até algo desonestas. Agora, não é por eu não gostar de Virgílio Ferreira, não ouvir um álbum do Manu Chao ou ter um ódio de estimação pelo David Lynch que vou deixar de reconhecer que há mérito artístico naquilo que fazem. Simplesmente, não é para mim – e, reza a lenda, eu não sou o centrinho do Universo.

 

Isto tudo me veio à memória por causa da morte do Saramago e das reacções no Facebook. Claramente, há dois lados da barricada: quem vem dizer que sempre o teve como escritor preferido e quem venha com o asco de “não vou dizer bem do gajo só porque morreu”. Eu tirando um livro infantil e uma peça de teatro, nunca li um livro do Saramago do início ao fim. Tentei, várias vezes. Gosto muito do imaginário e dos detalhes, não consigo gostar do estilo de escrita propriamente dito. Mas seria, no mínimo, infantil da minha parte vir mandar postas de pescada  sobre um autor que não domino assim tão bem. Quanto à pessoa, vi entrevistas com Saramago nas quais concordei com tudo, li outras nas quais não concordei com nada. Mas alguém que fala sem papas na língua sobre aquilo em que acredita merece, geralmente, o meu respeito – mesmo que não defenda o mesmo que eu. Que isto da liberdade de expressão é um assunto mais cheio de arestas do que parece à vista desarmada. E, independentemente disso, acho sem dúvidas que a obra é sempre maior que o Homem que lhe serviu de veículo. E o facto de eu não ter passado da página 20 do “Levantados do Chão” vai ser sempre acessório para o respeito que eu tenho pelo Saramago.

publicado por Miss November às 22:39

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