The cure for boredom is curiosity. There is no cure for curiosity.

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Mai 10

Pediram-me para escolher o livro mais marcante da minha vida, para depois falar sobre ele durante um minuto para um programa de televisão. O desafio começou por bloquear os meus neurónios, que ultimamente andam especialmente birrentos  e com pouca vontade de lidar com palavras escritas e lidas (ah, tão bom que seria agora trocar o guionismo por um part time a embrulhar castiçais na Loja Do Gato Preto do Colombo). Mas, ao chegar finalmente à resposta, achei-a tão óbvia que foi irritante como não me chegou automaticamente num vigoroso sopapo.

Foi a minha irmã, nove anos mais velha que eu, quem me convenceu pela primeira vez a trazer da biblioteca de Sintra “A Causa Das Coisas” do Miguel Esteves Cardoso. Não me recordo ao certo de quantos anos é que eu tinha, mas sei que tinha largado a escola primária e os livros da Uma Aventura não há muito tempo. É agora penosamente óbvio que não percebi muita coisa, mas li o livro todo de uma penada e fiquei desde logo fascinada com a ironia, a atenção ao detalhe, o desplante e a capacidade de fazer das palavras plasticina. Reli o livro (assim como os outros compêndios de crónicas do MEC) várias vezes ao longo da vida, tendo em mim o impacto que noutras pessoas tem o (ai, a polémica…) sobrevalorizado “O Principezinho”: cada vez que dava com os olhos nas páginas, via aquilo de outra maneira. É o meu livro do fim da infância, da adolescência e da idade infelizmente adulta. E o livro que fez com que eu saiba há demasiados anos o que quero fazer com a minha vida. Pobre da minha mãezinha, que queria era que eu queimasse as pestanas em Direito e fosse juíza.

 

“Aos portugueses não basta o tédio, a melancolia, o fastio ou o spleen. Para nós, tudo isso é coisa pouca e passa com um copo ou oito. Em Portugal, inventámos uma via portuguesa para a depressão que se compõe de todas as mágoas internacionais (tédio + melancolia + fastio + fastio + spleen) acrescentadas das nossas especialidades caseiras, nomeadamente a saudade e o sebastianismo. A este coquetelho implosivo chamamos a Neura.

A  Neura da nossa terra nada tem a ver com neuroses, neurastenias e outros nomes de consultório que os médicos balbuciam enquanto receitam psicotrópicos de Câncer ou de Capricórnio, sempre conforme o signo do doente. A Neura não tem cura. E a Neura não tem cura porque não é grave. É, a um mesmo tempo, pesada e leviana.

Parece que uma manada de elefantes, desejosos de entrar para o Guiness, está empenhadíssima a tentar ver quantos paquidermes nos cabem na cabeça. Mas basta o fresco pio de uma andorinha para espantá-los todos dali para fora. Na Neura pode acabar a primavera só por se constipar uma andorinha. Mas recomeça só por ela deixar de fungar. Mesmo que, para isso, tenha pegado uma pneumonia a todos os pássaros de Portugal.”

publicado por Miss November às 14:15

3 comentários:
Gosto de te ler, Susana :) Um beijinho.
andreia a 16 de Maio de 2010 às 15:43

Há mais gente a pensar que o Principezinho é sobrevalorizado...

E não é que eu tenho esse livro :) Comprado na livraria do cinema King.
João Ramos a 10 de Janeiro de 2011 às 22:52

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