The cure for boredom is curiosity. There is no cure for curiosity.

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Mai 10

 

Comecei por ser do Benfica por um motivo que não ficará bem figurar naquilo que se pretende ser um relato apaixonado de uma adepta: foi por vergonha. Não fui criada numa casa na qual as tendências clubistas fossem particularmente vincadas (o meu pai é do Belenenses por ter crescido naquele bairro, a minha mãe gosta do equipamento da Académica e não sabe o que é um fiscal de linha) e até aos meus nove anos nunca tinha pensado sequer nisso. Até que, numa aula de ginástica dos Bombeiros Voluntários de Algueirão Mem Martins, o professor resolveu perguntar aos meninos e meninas por que clube torcíamos. Estávamos no início dos anos 90, pelo que era normal toda a gente responder que era benfiquista – e eu na altura entortava a espinha com a pressão de pares, pelo que me proclamei o mesmo, sem saber o que isso significava. Pouco depois foi o mítico 6-3, que cimentou que o aleatório tinha tido a simpatia de me atribuir um bom clube. E, mesmo quando foi (bastante) menos bom em anos vindores, continuei a ser-lhe fiel. Podia não saber grande coisa sobre bola, mas sabia que de clube não se troca – porque ser adepto, felizmente, tem muito pouco de racional. Felizmente porque gosto que as entranhas ganhem à massa encefálica, pelo menos de vez em quando.

 

Salvo competições entre países (a primeira que acompanhei foi o Mundial Itália 90, apesar de Portugal nem lá estar), até há dois ou três anos atrás não liguava particularmente a futebol - aos campeonatos nacionais, mais concretamente. Depois, obrigações profissionais tiveram a finura de me fazer mudar de ideias. Mas, admito, o jogo em si não me diz muito. Sei apreciar a beleza de um bom golo, mas não é dos desportos que mais me encante em termos de perícia e destreza. Distraio-me muitas vezes ao longo daqueles noventa minutos: penso na vida, apercebo-me que me falta comprar alho francês e arroz, rogo pragas às propriedades diuréticas das imperiais.

 

Apesar de tudo isto, gosto muito de futebol. Sei que parece um contra-senso, mas para mim não é. Gosto da festa. Da polémica. Da novela. Das parangonas nos jornais. Das lágrimas. Das euforias. Acho o jogo propriamente dito quase acessório, porque o que me encanta é o que move. E ninguém move amores ou ódios como o Benfica.

 

Por isso, Domingo foi dia de festa. De ir para a tasca a Associação Excursionista “Vai Tu!” beber minis e comer “rissões” (como assegurava a toalha de papel feita poster do preçário), tirar fotos com cães vestidos com o equipamento do Benfica, beijar velhotes sem dentes, pular em cima de cadeiras. Depois, ir para o Marquês com mais 100 mil, abraçar quem passa, lambuzar-me em farturas e euforias. Descer a Avenida ao lado do autocarro, com a trunfa do David Luiz a proteger-me dos raios UV do luar.

 

Nunca fui grande coisa com espaldares. Mas, afinal, aquelas aulas de ginástica até me deixaram qualquer coisa para a vida.

publicado por Miss November às 01:50

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