The cure for boredom is curiosity. There is no cure for curiosity.

06
Mai 10

Os funerais recordam-me invariavelmente porque sou ateia. O modo como nos despedimos dos nossos mortos é algo em que não me consigo rever. Hoje fui a uma cremação, de uma tia-avó com a qual tive uma relação bastante próxima mas apenas durante a pré-adolescência (enfim, a história da minha família dava um livro da Isabel Allendre). O que mais me custou foi o estado em que estava o meu pai, pessoa de quem herdei todo o lado mais fechado e torcido do meu feitio. Recordo-me que uma vez me perguntaram em que momento senti que tinha deixado de ser criança. E para mim não foi quando perdi a virgindade ou arranjei o primeiro emprego ou passei a ter idade para tirar a carta de condução que nunca quis – foi quando percebi que o meu pai e a minha mãe eram apenas pessoas, falíveis e com fraquezas. E ver o meu Senhor João a chorar e ter de tomar conta dele mostra-me que, apesar de ter um capacete de Darth Vader a decorar-me a sala, já me sinto uma adulta. Merda, pá.

Já eu, não chorei. Nem tive vontade. Se calhar, porque tenho a sensibilidade de uma terrina da sopa com olhos. Já no Sábado fui a um casamento e penso ter sido a única criatura dotada de vulva que não lacrimejou (estando, em vez disso, concentrada em me recordar que já tinha vencido o padrinho do noivo num concurso de gases há dez anos atrás). Eu choro, até. E mais do que gostaria – só que pelos motivos mais parvos. Parece que o cabo que liga o meu cérebro aos meus vasos lacrimais está a fazer mau contacto. Senão, vejamos. Tenho um amigo com o qual discuto sobre coisas tolas mais vezes do que devia e choro quase sempre - mas não chorei quando uma das minhas melhores amigas teve um aneurisma e a vi estrebuchar no chão do Curry Cabral.  Chorei até mal conseguir respirar a ver isto, mas não chorei quando morreu o único avô que alguma vez tive. Chorei quando saí da minha patrulha dos escoteiros, mas não chorei quando me organizaram uma festa de despedida num local onde trabalhei mais de seis anos. Não sei se tenho as prioridades trocadas – mas as sensibilidades estão feitas em ovos mexidos, that´s for sure.

Nunca tinha ido a uma cremação na vida. É, no mínimo, bizarro. Levam toda a gente para uma espécie de corredor mal arquitectado ao qual chamam Sala Das Últimas Despedidas, abrem o caixão, o padre diz umas palavras (ocas, mas isso é para mim que sou filha de comuna). E depois vem um senhor engravatado perguntar “já posso levar?” e espetam com o caixão num forno. Os momentos seguintes são particularmente constrangedores – fica tudo sem saber para onde olhar, já que num enterro sempre há túmulos e flores para distrair a vista. Ali, olha-se para a porta de um forno e pensa-se na vida. Mas o que mais me impressionou nem foi isto. Foi reparar que numa das paredes desta sala estava um preçário que incluía até quanto se paga por hora para ter um corpo na arca frigorífica antes da cremação. E havia quem conferisse preços e concluísse “até nem está caro”, como se falasse de um pacote de férias na Riviera Maia ou do quilo da pá de porco.

O Mário de Sá Carneiro tem um poema no qual pede: “ Quando eu morrer batam em latas, rompam aos saltos e aos pinotes, façam estalar no ar chicotes, chamem palhaços e acrobatas!". Eu não faço ideia do que quero que quem cá fica faça quando eu morrer. Mas, ao menos, pensem em coisas úteis enquanto olham para a porta do forno. 

 

(*)= da série “Sete Palmos de Terra”.

 

 

publicado por Miss November às 01:12

3 comentários:
:)
Tino_de_Rans a 6 de Maio de 2010 às 15:24

Lá por não chorares não quer dizer que não sejas uma pessoa sensível e com sentimentos. Porque és e tens.
TC a 7 de Maio de 2010 às 10:15

Esta frase: \"Morrer não é o contrário de viver...\", é de autoria do professor e filósofo brasileiro, Mário Sérgio Cortella, o qual deve dar o devido crédito.
Graça Maria a 29 de Julho de 2014 às 20:27

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