The cure for boredom is curiosity. There is no cure for curiosity.

28
Abr 10

 

Museu Guggenheim (Nova Iorque, Dezembro 2008)

publicado por Miss November às 00:13

 

 

Por motivos de trabalho, tenho de ver e analisar semanalmente filmes pornográficos. Bem sei que o que acabei de escrever soa à pior desculpa da História desde “são rosas, senhor, são rosas” ou “juro que isto nunca me aconteceu antes” ou “eu não vou nada depor à Assembleia, que nem sei quem é aquele senhor grisalho”, mas é a mais pura das verdades. E posso assegurar que, apesar  do missionário ser aqui um espécime em extinção galopante, é bem mais chato do que parece . Isto sem desprimor para a  quantidade de amigos que tenho que já me asseguraram que adoravam ter este encargo em mãos – e sim, estou a fazer-me ao trocadilho. Mas as quecas propriamente ditas são bastante aborrecidas nove em cada dez vezes (oito, vá, que eu não sou santa), ao ponto de eu até já dizer ao meu dealer na Hot Gold “manda-me mas é aquelas cenas de japonesas com polvos, pá!”. É tudo tão previsível como uma comédia romântica com a Meg Ryan: no final eles ficam sempre juntos e no final ela fica sempre com esperma a pingar do queixo.  É bocejar e seguir para o próximo.

Sobre o porquê do meu pai ter apanhado a sua filha mais nova a falar de pilas e pipis frenéticos em pleno zapping em horário nobre posso alongar-me mais tarde.  Porque, para já, só queria mesmo partilhar isto: gajas, esqueçam os tratamentos para a celulite, o clerasil e a transferência de meia conta bancária para a Corporation Dermostetica. Eles não se ralam assim tanto. Não podem. Cinco minutos de um filme porno e fica-se logo a matutar “espera lá, eles excitam-se com esta tipa com ar de funcionária de um talho em Albergaria A Velha? Porque raio não se hão de excitar comigo que até faço o buço?”. Moças, a maioria das estrelas porno têm  corpinhos normais. Com estrias, cicatrizes,, pêlos encravados, casca de laranja, joanetes , you name it. No outro dia perdi uns bons sete minutos a ver uma verruga num rabo andar para cima e para baixo. Desde que a depilação esteja feita (desejo que a moda do pipi imberbe passe ainda mais do que desejo paz no mundo) e se esteja disposta a ir para a piscina de biquíni e saltos altos, pode-se ter um treçolho tipo bola de bilhar ou um rabo que parece um saco do Lidl demasiado cheio de batatas para a sopa. Vão por mim. E pelas “Fantasias Sexuais de Ana”.

 

(*) = ou “Como Trazer A Esta Blog Metade Das Buscas Badalhocas Feitas Por Este Google Fora”. Taradões de todo o mundo, fiquem à vontade. Mas não toquem em nada sem passarem primeiro as mãos por água, se faz favor.

 

 

 

publicado por Miss November às 00:08

26
Abr 10

 

Cascatas de Ouzoud (Marrocos, Setembro 2009)

publicado por Miss November às 15:14

 

Estou neste momento no meu local de trabalho a comer gomas ácidas e a colar cromos do Mundial na minha caderneta nova da Panini. É nestas alturas que fico mesmo feliz por nunca ter acabado o curso.

publicado por Miss November às 14:56

25
Abr 10

publicado por Miss November às 14:27

23
Abr 10



 

 

Já há muito que me habituei a ver a revelação saudada com gozo e descrédito. Se era coisa que não me ralava em plena autoconfiança adolescente, tão intrépida como esferovite, ainda menos me rala agora. Já ouvi todas as piadas com calções, lenços e idosas com necessidades de auxílio rodoviário possíveis e imaginárias. E tenho sempre mais uma acha para atirar para a fogueira do escárnio: não foram os meus pais que me meteram nos escoteiros (*). Fui eu que quis ir. Já não era propriamente uma criança, tinha 15 anos e uma independência parental que invejava as minhas amigas.

 

Não vou fingir que era tudo inocente. Os rapazes mais giros da minha escola andavam praticamente todos no AEP 82 e o uniforme era a garantia que podia passar noites fora de casa sem ter de dar grande cavaco à minha mãe. Mas para quem considera ter começado a sua carreira criativa inventando desculpas para se baldar às aulas de Educação Física (true story, um dia explico), colocar-me a jeito para subir montes e vales para fazer abrigos e fogueiras com as minhas próprias mãos era quase harakiri. Nestes aspectos, estive sempre longe de ser brilhante. Mesmo os meus nós nos atacadores dos sapatos não duram muito.

 

Ficaram-me muitas coisas dos meus anos escotistas. Falar das amizades é óbvio, suponho. E estaria a mentir se não admitisse que fiquei uma criatura mais voluntariosa. E dá-me imenso jeito estar treinada para dormir em quaisquer circunstâncias – não há persiana aberta ou obras na rua que cheguem aos calcanhares de dormir ao frio com a cabeça em cima de uma lata de feijão e um marmanjo de outra patrulha a tentar tirar-me as botas que tenho calçadas (sim, mesmo a dormir) para as atirar para cima de uma árvore. E já consegui impressionar pessoas armadas em intelectuais por saber de cor o primeiro canto dos Lusíadas (que faz parte da letra do hino escotista). Parece pouco ou parece que o digo com cinismo, mas longe disso. Hoje é Dia do Escoteiro e eu ainda sinto que é um bocadinho meu, apesar de ser a coisa menos socialmente sexy que posso admitir publicamente.

 

Daqui a uns poucos meses volta a época de festivais de Verão, o que quer dizer que me vão perguntar se estou disposta a acampar. E é nessa altura que vou explicar que já acampei mais vezes que eles todos juntos e ver as sobrancelhas a levantar.

 

 

 

(*) = para quem me chateia sempre o juízo sobre se a grafia é “escoteiro” ou “escuteiro”, é favor ver isto.

 

 

publicado por Miss November às 16:12

 

Foto tirada à socapa numa aula de judo no jardim do Palácio de Osaka (Setembro 2008)

publicado por Miss November às 03:52

 

Eu tinha 14 anos e passaram outros tantos. Oficialmente, talvez não seja correcto considerar o primeiro concerto ao qual fui. Mas nunca quis contar com aquele concerto do Jorge Palma para o qual a minha mãe me arrastou quando eu tinha sete anos (foi na zona da piscina de um aparthotel no Algarve e eu adormeci numa esteira ainda antes do primeiro acorde soar, lançando ocasionalmente olhares birrentos àquele tipo que cantava sobre whisky de malte e não me deixava sonhar com o Meu Pequeno Pónei) nem a actuação do Avô Cantigas num parque subterrâneo de um centro comercial em Mem Martins (momento no qual julgo que o meu cérebro joga à apanhada comigo, porque podia jurar que não há parques subterrâneos em Mem Martins até hoje). Mas foi o primeiro concerto para o qual juntei dinheiro para o bilhete e que me fez batucar os ventrículos numa insónia inquieta na noite anterior.

Na altura, não era cool gostar dos Blur. Lembro-me de um rapaz da minha escola secundária olhar para a minha t-shirt com o logo da banda e dizer-me “acho que a tua t-shirt dos Bush tem uma gralha”. Na altura ainda estava a treinar as respostas de ponta-e-mola que hoje me saem facilmente, pelo que o deixei prosseguir na sua ignorância. Mas não fez mal. Os Bush morreram sem deixar rasto. O rapaz em questão trabalha hoje em dia numa gasolineira. A ordem no mundo foi reposta sem beliscões.

Eu gostava do Blur porque tinha ganho o The Great Escape num programa do Júlio Isidro. Na altura, dominava tudo o que eram os concursos de “envie a melhor frase”, fruto talvez de ter recebido aos nove anos uma máquina de escrever que eu queria levar até para a praia. Como não cabia no baldinho (e sim, levei baldinho para a praia até ridiculamente tarde), nunca a consegui esconder do meu pai ao ponto de a fazer atravessar a Ria Formosa. 

Era Fevereiro e estava frio. Lembro-me deste último detalhe porque levei demasiada roupa vestida, camadas de algodão compacto que vim a odiar ao fim de dois pulos num refrão. Havia um tipo igualzinho ao Graham Coxon numa das varandas do Coliseu e a minha clara inexperiência ainda me deixou confusa algum tempo, antes de ter percebido que era a versão de Almada e não a versão londrina. Quando entrei, achei a sala enorme. Mas calculo que não é difícil arranjar um local maior que um parque de estacionamento em Mem Martins, mesmo que imaginário. Sentei-me nas bancadas, do lado esquerdo do palco - devidamente decorado com hambúrgueres de tamanho de fazer babar o Fernando Mendes. E quando o concerto começou senti que ia morrer. Mas em bom.  Foi ao mesmo tempo inesquecível e demasiado avassalador para que o meu cérebro o tenha armazenado.

Eu tinha 14 anos e passaram outros tantos.  Os Blur já acabaram, voltaram e acabaram outra vez. Mas eu perdoou-lhes a inconstância. Se eu mudei de certezas tantas vezes em 14 anos, eles também têm direito.

 

(*) = daqui.

publicado por Miss November às 02:51

13
Abr 10

publicado por Miss November às 16:46

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